Lisboa
Gosto de Lisboa cinzenta
Castanhas assadas, chuva de outono
Abrigo nas arcadas
Passos apressados.
Os elétricos amarelos circulam
Ao longo das linhas centenárias
resistentes aos atropelos do tempo
em solavancos desajeitados
Observo os seus passageiros
Lembro e imagino a história, as estórias
Vividos no vaivém incansável
Refletidos em espelhos de água
As telas que as materializam
Amo as avenidas, as ruas e ruelas
Com luzes acesas ao final da tarde
Observo, sinto o aroma das cores e relevos
Da cidade das sete colinas que não são sete
A gente no frenesim das ruas salpicadas de água
Abrigos nas longas arcadas
Dos cafés e dos ministérios
Periferia europeia, outrora pioneira
De onde partiram tantos barcos
Onde se criou a mais bela literatura
Sabor das mais belas bicas
Cheiro de castanha assada
Ao som dos pregões das mulheres
Que acenam com folhas de jornal
Ao mar de gente nas ruas
Gosto de observar a tela
De cores e movimentos
Lisboa
Feita de açúcar, sal e especiarias
Sabor ímpar.
ⓒ Carlos Veiga 20.11.2014



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